DIA D, DIA DRUMOND

Há 109 anos, neste 31 de outubro, nasceu Carlos Drummond de Andrade. Aquele que nos falou em versos, imorredouros. Por isso hoje é o Dia D, de Drummond.


Do Drummond com a arma das palavras, como nós, Lutador:

Lutar com palavras

é a luta mais vã.

Entanto lutamos

mal rompe a manhã.

(...)

Lutar com palavras

parece sem fruto.

Não têm carne e sangue…

Entretanto, luto.

Do Drummond poeta da Flor e da Náusea, esperançoso:

Preso à minha classe e a algumas roupas,

Vou de branco pela rua cinzenta.

(...)

Não, o tempo não chegou de completa justiça.

(...)

Uma flor nasceu na rua!

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.

Uma flor ainda desbotada

ilude a polícia, rompe o asfalto.

Façam completo silêncio,

paralisem os negócios,

garanto que uma flor nasceu.

(...)

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde

e lentamente passo a mão nessa forma insegura.

(...)

É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Do Drummond antifacista, que denuncia que A Noite Dissolve os Homens:


A noite desceu. Que noite!

Já não enxergo meus irmãos.

E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,

nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.

A noite caiu. Tremenda, sem esperança...

(...)

E o amor não abre caminho na noite.

(...)

Aurora, entretanto eu te diviso,

ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender

e dos bens que repartirás com todos os homens.

(...)

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,

teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam

na escuridão

como um sinal verde e peremptório.

(...)

Havemos de amanhecer.

O mundo se tinge com as tintas da antemanhã

e o sangue que escorre é doce, de tão necessário

para colorir tuas pálidas faces, aurora.

Do Drummond solidário, de Mãos Dadas:

Estou preso à vida e olho meus companheiros. Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito,vamos de mãos dadas.

(...)

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

Do Drummond portador:

que tem apenas duas mãos

e o sentimento do mundo.

Do Drummond cujos Ombros Suportam o Mundo:

(...)

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

(...)

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

Do Drummond ambientalista, cantor das Águas e Mágoas do Rio São Francisco:

Está secando o velho Chico.

Está mirrando, está morrendo.

(...)

Não colho qualquer resposta,

nada fala, nada conta

das tristuras e renúncias,

dos desencantos, dos males,

das ofensas, das rapinas

que no giro de três séculos

fazem secar e morrer

a flor de água de um rio.

Do Drummond visionário, que nos disse:

"Se eu fosse deputado federal, estaria hoje muito apreensivo.

(...)

Onde e como guardar eternamente o lixo atômico? Por essas e outras, os Estados Unidos e a própria Alemanha, que nos vendem usinas nucleares, não querem mais saber de novos reatores em seus territórios. Inglaterra e Suécia já paralisaram completamente seus programas nucleares. E nós? Acidentes conhecidos desmoralizaram o mito da infalibilidade das usinas nucleares.

Se o futuro é incerto, e se a ciência não pode garantir um nível de segurança que tranquilize o ser humano, a construção dessas usinas tem caráter de ameaça.

(...)

Se eu fosse deputado, a este hora, perderia o sono pensando nos riscos impostos ao país para nos envaidecermos de empreendimentos que buscam o chamado progresso e liquidam a segurança de viver. Mas é preciso ser deputado para sentir o peso atroz dessa ameaça? Eu, homem do povo e escrivão público, participo desse terror. E acho que o Poder Lesgislativo tem obrigação de pedir contas desse programa assustador, desenvolvido a sua revelia e sob total ignorância do povo".

Do Drummond eternamente vivo na sensibilidade e na nossa Memória:


Amar o perdido

deixa confundido

este coração.

Nada pode o ouvido

Contra o sem sentido

apelo do não.

As coisas tangíveis

tornam-se insensíveis

à palma da mão

Mas as coisas findas

muito mais que lindas,

essas ficarão.



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